“O VERDADEIRO MESTRE É UNIVERSAL” (Fragmento) - Marco Baptista

17 agosto 2010

“O VERDADEIRO MESTRE É UNIVERSAL” (Fragmento)

O pintor não é digno de louvor se não for universal. Pode-se dizer claramente que se enganam aqueles que
chamam de bom mestre o pintor que executa bem apenas uma cabeça ou figura. Não é um grande feito, estudando uma
única coisa durante toda a sua vida, alcançar alguma perfeição; mas nós, sabendo que a pintura abarca e contempla
todas as coisas que a natureza produz e tudo o que criou a operação fortuita do homem, e por último o que se pode
apreender com os olhos, parece-me bem pobre, o mestre que só sabe fazer bem uma figura. Ora, não vês quantos e quão
variados são os atos realizados pelo homem? Não vês como os animais são diversos e também as árvores, as plantas, as
flores e a variedade de sítios na montanha e na planície, nascentes, rios, cidades, edifícios públicos e privados,
instrumentos de uso do homem, e diferentes vestimentas, ornamentos e artes? Todas essas coisas devem ser perfeitas e
bem executadas por aquele que queres chamar de bom pintor. [...]

Discurso dos preceitos do pintor. Eu sempre constatei que, entre todos os retratistas, aquele que obtém a melhor
semelhança é pior pintor de istoria que qualquer outro. E isso ocorre por que quem faz melhor uma coisa, é que a
natureza lhe dispôs a essa coisa e não a uma outra, por essa coisa ele teve mais amor e esse maior amor o fez mais
diligente; e todo amor que é concentrado em uma parte faz falta ao todo, porque ele fez dessa única coisa seu único
prazer, deixando o universal pelo particular. Com toda a potência desse espírito confinada em pouco espaço, não há
potência na dilatação e esse espírito atua à semelhança do espelho côncavo: ao tomar os raios do Sol e refletir essa
quantidade de raios numa área de maior dispersão, produz um calor tépido; mas quando os reflete num espaço menor,
então esses raios são de calor imenso, fazendo uso de pouco espaço. Assim fazem os pintores que não amam outra coisa
na pintura que não seja o rosto humano; e o que é pior, não sabem estimar e apreciar nenhum outro aspecto da arte; e
suas obras são sem movimento, por serem eles mesmos preguiçosos e de pouco movimento, criticam aquelas coisas que
têm movimentos maiores e mais livres que as suas e dizem que esses [personagens] parecem possuídos e mestres de
[danças] mouriscas. [...]

VINCI, Leonardo da. Tratado de Pintura. "O verdadeiro mestre é universal". (col. a pintura. Vol. 10 os g^neros pictóricos. Coord. Lichtenstein, Jaqueline) são Paulo: Ed 34, 2006.

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